O
que somos e o que não somos.
1.
O inimigo e o culpado.
Temos,
cada um, um inimigo (genético), e os culpados que apontamos.
Imaginemos
como era a vida na pré-história. Coisa de 4.000 anos para trás, ou seja, desde o surgimento da vida na Terra até o aparecimento da escrita.
Tempos em que todos viviam numa mistura só. Em cavernas e ao relento. A noite
chegava e era um terror. Bem conhecemos as dificuldades enfrentadas pelos
animais selvagens na luta diária pela sobrevivência. Naquela mixórdia, viviam os
primeiros humanos.
Na
luta diária pela comida, cada um tinha suas presas fáceis, e também seus
inimigos.
Tanto
tempo depois, muitas coisas por que passaram nossos ancestrais se tornaram
marcas e hoje as temos como herança. Como o ridículo cacoete do cachorro que
tenta derrubar cada poste que encontra com um mixuruca jato de urina, temos o
soluço, o ronco (o roncador dormia na entrada da caverna para espantar os
eventuais intrusos), fazer cocô de cócoras (será uma herança?), etc, e um inimigo.
Mental ou real.
Eu
tenho um. Mental. Quando sou contrariado, ou alguma coisa não vai bem, eu parto
pra briga, chutando, berrando, dizendo-lhe um milhão de verdades. Às vezes até
me pego gesticulando e fazendo caretas. A minha sorte é que o meu verdadeiro
inimigo, o real, foi enfrentado por meus antepassados. Melhor assim. Há muitos
que, ao contrário, elegem alguém, colega ou parente, para personificar sua herança.
Numa
roda de amigos, após alguns encontros, é muito fácil descobrir o inimigo de cada
um. Não faz bem ter inimigos, pois o ódio faz mal. O ódio é uma coisa gosmenta,
esverdeada, sufocante, que escorre pela alma. O problema maior é quando o próprio
companheiro é eleito como inimigo. As culpas passam a ter um autor. E a vida
vira um fardo sem graça.
O
segredo do bem viver está em descobrir quem é o nosso infeliz eleito. Se inimigo
mental, quando ele insistir em aparecer, devemos mandá-lo de volta para a pré-história. Se real, transmutá-lo
em amigo.
Não
há como conviver com inimigos. As culpas são invencionices de cabeças com 4.000
anos, ou mais.
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