quinta-feira, 11 de outubro de 2012


 

Excerto do conto "Mergulhando no Cafoto"

Antigamente o banheiro, gabinete sanitário, bwc, que se podia ter era a privada, que consistia numa casinha com assento de madeira, em cima de um buraco escavado no chão para aonde iam os cocôs e os xixis, pela força da gravidade, e também pela força com que o cabra ejetava os dejetos (catapimba!). Também eram chamadas de sentina, cloaca, retreta, casa-comum, cagatório, casinha, secreta, cafoto, cambrone, gabinete, quartinho, necessária... (Dic. Aurélio).
Charles Sale, escritor ianque, escreveu (1929) a história d’o Especialista (Ed. Globo), um caboclo americano, carpinteiro, lá do interiorzão deles, muito criativo, especialista na construção de privadas. É uma história muito bonita, realmente. Por sua conta foi-se especializando, a cada obra que entregava, a ponto de dar garantia de um ano pra cada freguês. Para um que reclamou que a patente lhe estava dando prejuízo, pois os empregados muito se demoravam nela, ele descobriu que a causa era o assento, muito cômodo (a moçada chegava a divagar) e, por isso, passou-lhe o serrote deixando-o quadrado, de quinas bem vivas. A partir daí ninguém se demorava mais que quatro minutos.
Pro curtume dos italianos ele fabricou uma privada de oito buracos.
Houve um freguês que queria colocar o cagatório, numa curva da estrada, embaixo dum enorme pé de laranja azeda. Ele discordou, e justificou:
- “seo Majó, eu é que não fazia isso. E vou lhe dizer por quê. Pra começar, embaixo de árvores não é certo. O barulho mais esquisito da natureza é o de laranja podre caindo no telhado. E lhe digo mais: aquele chão ali não chupa umidade, e no inverno fica muito escorregoso. Pense no seu pai, Majó, e se alembre que esse é quase que o único prazer do velho. Olha o coitado vindo aí numa noite de chuva, co’a camisola batendo nas canelas e no outro dia de manhã ocê encontra o velho entalado no barro ... Não, Majó. Ponha essa privada no alinhamento da casa, e se não lhe fizer diferença, um pouquinho pra lá do monte de lenha. Vou lhe dizer por quê. Imagine uma mulher, por exemplo, quando ela vai lá fora. De volta ela já traz uns quatro paus de lenha, e arrepare que em média as mulheres vão lá fora de quatro a cinco vezes por dia. Isso faz vinte paus de lenha dentro de casa, sem trabalho nenhum. Se a mulher é meio encabulada, quando vê algum homem por perto, é garantido que ela não entra. Intão, pra disfarçar, ela faz que foi buscar lenha, aproveita pra trazer uns paus, e espera outra volta. No geral, a mulher meio vergonhosa, inda mais sendo uma empregada nova, chega a fazer inté dez viagens no monte de lenha antes de se arresolver a entrar de qualquer jeito. Num dia de sorte, quando bate meio-dia, ocê já está com toda a lenha dentro de casa. Não vê a economia que isso é, Majó?
Quanto à construção, posso lhe botar sarrafo ou barrote. Barrote é pro resto da vida. Faça de barrote, custa mais um pouco, mas vale a pena. Calcule a sua tia velha, que já não tem mais o que engordar. Um dia destes ela vai lá, quando o sarrafo já não agüenta, e olha a velha embutida! O telhado? Tem de meia-água e de duas águas. Muita gente boa manda fazer de meia-água. E vou lhe dizer por quê. O telhado de meia-água tem dois cantos menos pros marimbondos fazer ninhos. E numa tarde de verão não há nada que desinquiete tanto como os marimbondos a zumbir em volta da gente, quando ocê está lá lendo um pouco, maginando, pensando. E despois, tem outra coisa, Majó, telhado de meia-água dá porta mais alta. Olhe esse seu filho crescendo que nem abóbara, e ele não cresce pra baixo, como cola de cavalo. Telhado de duas águas dá porta baixa; e olha aí o guri rachando a testa toda vez que vai na casinha!
Quanto aos apetrechos, posso lhe dar um prego grande ou um gancho de arame pro jornal, e além do mais, um caixãozinho pros sabugos. Calcule o seu pai, por exemplo. Velho é sempre da moda antiga, e ele há de querer sabugo. Assim, faça o que lhe digo, ponha as duas coisas, Majó. O caixãozinho pra sabugo não vai lhe custar um vintém a mais, e serve pra manter a paz na família. Não se tira manha de cavalo velho. Nem se indireita sombra de vara torta.
E janela, não recomendo. Imagine uma pessoa que vai lá. Pode ser que ela este- ja meio apressada, ou quem sabe se já não esperou muito. Se a porta está fechada e ocê não responde, pode contar que arrodeiam pra espiar pela janela, e  aí  ocê  já  perde  a concentração.
E a porta? Como é que quer que abra? Pra dentro ou pra fora? Que abra pra dentro, Majó, sempre pra dentro. Calcule ocê sentado lá, a porta nem aberta nem fechada, com uma fresta de dois palmos dos grandes. Ansim ocê tem bastante ar e deixa o sol entrar. Agora, se aparece alguém, ocê, sem se levantar, dá um pontapé na porta e não se incomoda mais. Mas se a porta é de abrir pra fora, onde é que ocê fica? Ocê não pode arriscar a abrir a porta pra arejar e pra lagartear um pouco no sol; porque se aparece alguém, ocê não pode se levantar de onde está e inda fazer uma voltinha pra ir lá fora puxar a porta, sem dar o que ver, pode?
... "

Nenhum comentário:

Postar um comentário