Excerto do conto "Mergulhando no Cafoto"
Antigamente o banheiro, gabinete sanitário,
bwc, que se podia ter era a privada, que consistia numa casinha com
assento de madeira, em cima de um buraco escavado no chão para aonde iam os
cocôs e os xixis, pela força da gravidade, e também pela força com que o cabra
ejetava os dejetos (catapimba!). Também eram chamadas de sentina, cloaca,
retreta, casa-comum, cagatório, casinha, secreta, cafoto, cambrone, gabinete,
quartinho, necessária... (Dic. Aurélio).
Charles Sale, escritor ianque, escreveu (1929)
a história d’o Especialista (Ed. Globo), um caboclo americano, carpinteiro, lá
do interiorzão deles, muito criativo, especialista na construção de privadas. É
uma história muito bonita, realmente. Por sua conta foi-se especializando, a
cada obra que entregava, a ponto de dar garantia de um ano pra cada freguês.
Para um que reclamou que a patente lhe estava dando prejuízo, pois os
empregados muito se demoravam nela, ele descobriu que a causa era o assento,
muito cômodo (a moçada chegava a divagar) e, por isso, passou-lhe o serrote
deixando-o quadrado, de quinas bem vivas. A partir daí ninguém se demorava mais
que quatro minutos.
Pro curtume dos italianos ele fabricou uma
privada de oito buracos.
Houve um freguês que queria colocar o
cagatório, numa curva da estrada, embaixo dum enorme pé de laranja azeda. Ele
discordou, e justificou:
- “seo Majó, eu é que não fazia isso. E vou
lhe dizer por quê. Pra começar, embaixo de árvores não é certo. O barulho mais
esquisito da natureza é o de laranja podre caindo no telhado. E lhe digo mais:
aquele chão ali não chupa umidade, e no inverno fica muito escorregoso. Pense
no seu pai, Majó, e se alembre que esse é quase que o único prazer do velho.
Olha o coitado vindo aí numa noite de chuva, co’a camisola batendo nas canelas
e no outro dia de manhã ocê encontra o velho entalado no barro ... Não, Majó.
Ponha essa privada no alinhamento da casa, e se não lhe fizer diferença, um
pouquinho pra lá do monte de lenha. Vou lhe dizer por quê. Imagine uma mulher,
por exemplo, quando ela vai lá fora. De volta ela já traz uns quatro paus de
lenha, e arrepare que em média as mulheres vão lá fora de quatro a cinco vezes
por dia. Isso faz vinte paus de lenha dentro de casa, sem trabalho
nenhum. Se a mulher é meio encabulada, quando vê algum homem por perto, é
garantido que ela não entra. Intão, pra disfarçar, ela faz que foi buscar
lenha, aproveita pra trazer uns paus, e espera outra volta. No geral, a mulher
meio vergonhosa, inda mais sendo uma empregada nova, chega a fazer inté dez
viagens no monte de lenha antes de se arresolver a entrar de qualquer jeito.
Num dia de sorte, quando bate meio-dia, ocê já está com toda a lenha dentro de
casa. Não vê a economia que isso é, Majó?
Quanto à construção, posso lhe botar sarrafo
ou barrote. Barrote é pro resto da vida. Faça de barrote, custa mais um pouco,
mas vale a pena. Calcule a sua tia velha, que já não tem mais o que engordar.
Um dia destes ela vai lá, quando o sarrafo já não agüenta, e olha a velha
embutida! O telhado? Tem de meia-água e de duas águas. Muita gente boa manda
fazer de meia-água. E vou lhe dizer por quê. O telhado de meia-água tem dois
cantos menos pros marimbondos fazer ninhos. E numa tarde de verão não há nada
que desinquiete tanto como os marimbondos a zumbir em volta da gente, quando
ocê está lá lendo um pouco, maginando, pensando. E despois, tem outra coisa,
Majó, telhado de meia-água dá porta mais alta. Olhe esse seu filho crescendo
que nem abóbara, e ele não cresce pra baixo, como cola de cavalo. Telhado de
duas águas dá porta baixa; e olha aí o guri rachando a testa toda vez que vai
na casinha!
Quanto aos apetrechos, posso lhe dar um
prego grande ou um gancho de arame pro jornal, e além do mais, um caixãozinho
pros sabugos. Calcule o seu pai, por exemplo. Velho é sempre da moda antiga, e
ele há de querer sabugo. Assim, faça o que lhe digo, ponha as duas coisas, Majó. O caixãozinho pra sabugo não vai lhe
custar um vintém a mais, e serve pra manter a paz na família. Não se tira manha
de cavalo velho. Nem se indireita sombra de vara torta.
E janela, não
recomendo. Imagine uma pessoa que vai lá. Pode ser que ela este- ja meio
apressada, ou quem sabe se já não esperou muito. Se a porta está fechada e ocê
não responde, pode contar que arrodeiam pra espiar pela janela, e aí ocê já perde a concentração.
E a porta? Como é que quer que abra? Pra
dentro ou pra fora? Que abra pra dentro, Majó, sempre pra dentro. Calcule ocê
sentado lá, a porta nem aberta nem fechada, com uma fresta de dois palmos dos grandes. Ansim ocê tem bastante ar e deixa o sol entrar. Agora,
se aparece alguém, ocê, sem se levantar, dá um pontapé na porta e não se
incomoda mais. Mas se a porta é de abrir pra fora, onde é que ocê fica? Ocê não
pode arriscar a abrir a porta pra arejar e pra lagartear um pouco no sol;
porque se aparece alguém, ocê não pode se levantar de onde está e inda fazer
uma voltinha pra ir lá fora puxar a porta, sem dar o que ver, pode?
... "
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