segunda-feira, 8 de outubro de 2012



         Excerto do conto “Sidinei Polina”.

         "...
      Mas é preciso, antes das apresentações e da anunciação da maior das grandes encrencas de Polina, relatar duas outras causas abraçadas por ele que mais o afamaram e mais lhe trouxeram inimigos.
         A primeira foi o grande embate que teve com Pampam Deredeu, o mais famoso ateu da região. Conhecido como Deredeu, o ateu, Pampam também era uma figura carimbada, por muitos conhecido, principalmente pelos católicos, que tinham por ele muito pavor.
- Deus não existe. Isso é babaquice! – disse Pampam para Polina, na fila da lotérica “O rio que arde”. Sidinei, falando com Tibiguiti, dissera para ele: Deus que me ajude a ganhar essa acumulada!
- Se Deus não existe, o que é que tá no lugar dele?- retrucou Polina para Pampam.
- Se não existe, não tem nada no lugar dele, ô meu!
Polina não aceitou:
- Meu querido, em todo este Universo, tudo é lugar, o Universo é um lugar! E tem um lugar, em algum lugar deste Universo, que tem um cara lá, no comando, desde ontonte. Se tu dizes que ele não está lá, quem, o que é que tá naquele lugar que ele deveria estar ocupando?
- Não tem nada lá, em lugar nenhum!
- Não existe lugar nenhum, todos os lugares existem, formando um só lugar, tudo é lugar, do lugarzão fenomenal ... se não está em nenhum dos lugares, onde ele deveria estar?
- Mas quem disse que ele deveria estar, se ele não existe!?
- Meu amigo, não há vácuo no Universo. Você não pode dizer que ele não existe, pois assim você está criando um vácuo, que é o lugar onde Deus deveria estar! Se você tira Deus do seu lugar, como não pode haver vácuo, você tem que colocar alguma coisa no lugar. O que é que está lá, no lugar de Deus?
- Esse lugar não existe, e esse teu Deus também não!
- Seu Deredeu, então o senhor está matando Deus e criando um vácuo?
        O debate se estendeu até que Pampam fizesse suas apostas e saísse, até meio apavorado, meio tonto. Deredeu continuou ateu, mas deu no que deu: Polina tornou-se o simpático dos católicos, dos crentes em Deus. E esta sua qualidade também chegou aos ouvidos do Pe. Virgo, engrandecendo-o, valorizando-o mais ainda.
      A história do “chicote no piá” aconteceu na sala de espera da Policlínica Municipal. Dona Ingri Dalemânia já não sabia o que fazer para aquietar seus filhos, gêmeos, que tivera com Simeão Rútulo, seminarista de Azambuja. Piá com sete anos só sabe pintar o sete, não é verdade? Pois parece que sabiam que autoridade não é o que falta pra guri pequeno aprontar. Até que chegou Polina, irritadíssimo, preocupadíssimo com o umbigo que inchara, que virara uma bolha roxa.
          Polina pegou a senha, sentou-se e arrepiou-se. Foi atingido. Um dos santinhos jogou-lhe a chinela da mãe diretamente no estômago, bem pertinho do umbigão.
- É seu filho? – perguntou para Dona Ingri, contendo-se, engolindo o fel da indignação.
- O senhor desculpe, mas não consigo acalmar estes meninos.
- Ah, a senhora tem dois ... e são iguaizinhos ...
- Gêmeos, Venceslau e Perdeslau.
- Que mal lhe pergunte, como a senhora educou estes moleq... estas gracinhas?
 ..."
            

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