Excerto do conto "Que venham!"
"...
Sábado. Nuvens carregadas vindo por trás, avisando que a lestada ia
chegar. Babau: três dias de chuvas, no mínimo. “Agora mesmo é que não bate
nenhum gringo aqui nessa covanca” – esbravejou o novo empresário do ramo
hoteleiro.
Se o dia começa atravessado, o melhor é ficar na cama.
Pára um carro com distintivo na porta, na porta do João.
– Nós somos do meio ambiente.
– Eu também sou.
– O senhor também? Como?
– E quem não é do meio ambiente?
– Bem, mas nós somos do Órgão.
– Órgão eu também tenho.
Eram duas moças e um bigodudo, o motorista.
– O senhor... está regularizado? Pode mostrar os documentos, a papelada
da obra?
João ficou em silêncio.
– É que nós estamos fazendo um esforço sobre-humano para fiscalizar as
obras clandestinas na Ilha. Isso tem que acabar, não é verdade? O senhor não
concorda? A ordem é derrubar tudo o que não for legalizado.
Ainda bem que o bigodudo era bom de ré, porque naquela servidão não tinha
como fazer a volta. Uma delas ainda teve tempo de abrir a janela e gritar:
– O senhor vai ser indiciado!!!
João sentou e, quando ia tremer as pernas para relaxar, viu a família
chegando. Sem a sogra. Graças a Deus! Ao menos uma coisa boa. Quando foi
abraçar a mulher e os filhos é que notou, lá na boca da rua, segurando no
mourão, a jararaca, batendo com o pé direito no chão, olhando e gesticulando
para o cartaz. João sentiu os dentes rangerem.
– Onde estão as vinte casas? Mas como é que pode?
– Calma, maiêêê, o João fez o possível e o impossível.
– Enterrou o pouco que tinha nessa desgraça. E aquele aviso lá na frente?
Tás alugando a cerca?
Foi a primeira vez na vida que João Secenso tomou uma atitude com a
velha. Correu na direção duma enxada, aquela outra maldita que lhe tinha
arrebentado os dedos, e só na ameaça fez a família toda correr, apurada. Mas
Deudéia, mesmo expulsa, ainda teve a coragem de gritar, quando já ia saindo lá
na estrada:
– E vai fazer essa barba que assim tu só espantas os turistas!
É, João podia dizer que tinha uma história.
Mas o dia ainda não acabara. Desfaleceu.
No finzinho da tarde, nem bem tinha acordado, escutou uma buzina. Correu
pra janela e viu, ali, inteirinho, na frente do seu hotel, carregado até a
boca, pretão e amarelinho... um táxi argentino."
***
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