quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A solidão e o ovo.


                    A solidão e o ovo.

A solidão mete medo, porque torna o homem desprotegido, vulnerável.

Solidão é castigo?

O homem, tendo vivido cercado, quando todos se vão, por desprezo ou pelo distanciamento, ou pela morte, se parece com um ovo. Nu, sem recursos, está sujeito a qualquer evento. O solitário é um ovo abandonado.

A criança, nascida, que diferença tem de um ovo? É logo afagada; o ovo posto é largado no chão.

Quem um dia ficou só, teme a solidão.
O solitário é uma criança que virou ovo em vida.

Morte, solidão eterna. Assim que se encerram os cantos, todos os cantores se vão.

O quê falta para o solitário? Alguém na cadeira.
O quê tem de sobra, o solitário? Excesso de si no seu pouco-mundo.
O quê mais teme, o solitário? A multidão.
O quê espera o solitário? Batidas na porta.
A quem importa o solitário? Não conta, não importa.
O quê faz o solitário? Coisas, sem registros, nem lembranças.
Como o peixe que nunca será notado porque não pescado, a solidão encobre o homem nas trevas do esquecimento. 

17 jan 13

Como viver ...





Ainda sobre Michel de Montaigne.


De “Como Viver”, de Sara BakeWell – Ed. Objetiva – pag. 212.


     Ao lado do desejo de ser feliz, de alcançar a paz emocional e estar no pleno domínio das próprias faculdades, alguma coisa compele periodicamente as pessoas a destruir as próprias conquistas.
      É o que Freud chamava de princípio de thanatos: a pulsão para a morte e o caos.
      Ela foi descrita assim, no século XX, pela escritora Rebecca West:
- “Só em parte somos sãos: só uma parte nossa ama o prazer e um dia mais prolongado de felicidade, só uma parte quer viver até noventa anos e mais e morrer em paz, numa casa que construímos e que abrigará os que vierem depois de nós. Nossa outra metade é quase louca. Prefere o desagradável ao agradável, ama a dor e seu sombrio desespero noturno e quer morrer numa catástrofe que mandará a vida de volta ao começo, nada deixando de nossa casa, senão os alicerces calcinados.”




terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Como viver - Montaigne.


 Ainda sobre Michel de Montaigne.


    De “Como Viver”, de Sara BakeWell – Ed. Objetiva – pag. 212

                                            
           Montaigne não confia em ambições divinas; para ele, aqueles que tentam alçar-se acima do que é humano conseguem apenas cair no subumano. Ser verdadeiramente humano significa comportar-se não só de maneira comum, mas ordenada, palavra definida no Oxford English Dictionary como “organizada, regulada; ordeira, regular, moderada”. Significa viver adequadamente, ou à propos, de modo a avaliar as coisas pelo exato valor e comportar-se de maneira apropriada a cada situação. Por isso é que, no dizer de Montaigne, viver adequadamente é “nossa grande e gloriosa obra-prima”.

          Para Montaigne, “não há nada tão belo e legítimo quanto ser um homem de forma boa e adequada, nem conhecimento tão difícil de adquirir quanto o conhecimento de como viver esta vida bem e com naturalidade; e a mais bárbara de nossas doenças é desprezar o nosso ser.”


  ***

Montaigne.



Ainda sobre Michel de Montaigne.

De “Como Viver”, de Sara BakeWell – Ed. Objetiva – pag. 212.


           Montaigne não confia em ambições divinas; para ele, aqueles que tentam alçar-se acima do que é humano conseguem apenas cair no subumano. Ser verdadeiramente humano significa comportar-se não só de maneira comum, mas ordenada, palavra definida no Oxford English Dictionary como “organizada, regulada; ordeira, regular, moderada”. Significa viver adequadamente, ou à propos, de modo a avaliar as coisas pelo exato valor e comportar-se de maneira apropriada a cada situação. Por isso é que, no dizer de Montaigne, viver adequadamente é “nossa grande e gloriosa obra-prima”.
         Para Montaigne, “não há nada tão belo e legítimo quanto ser um homem de forma boa e adequada, nem conhecimento tão difícil de adquirir quanto o conhecimento de como viver esta vida bem e com naturalidade; e a mais bárbara de nossas doenças é desprezar o nosso ser.”










        

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O quê somos ...


Em outubro, postei:

            O que somos e o que não somos”.
                   1. O inimigo e o culpado.

                           Temos, cada um, um inimigo (genético). Eu tenho um. Mental. Quando sou contrariado, ou alguma coisa não vai bem, eu parto pra briga, chutando, berrando, dizendo-lhe um milhão de verdades. Às vezes até me pego gesticulando e fazendo caretas. A minha sorte é que o meu verdadeiro inimigo, o real, já foi enfrentado por meus antepassados. Melhor assim.
                          Esses “inimigos” não estão em cavernas. Cada um elege um próximo, colega ou parente.
                          O segredo do bem viver está em descobrir quem foi o nosso infeliz eleito. Se inimigo mental, quando ele insistir em aparecer, devemos mandá-lo de volta para a pré-história. Se real, transmutá-lo em amigo.
                          Não há como conviver com inimigos. As culpas são invencionices de cabeças com 4.000 anos, ou mais. 
                   Hoje, lendo “Como viver”, de Sarah Bakewell (biografia de Montaigne), pag. 154, lá está:
            - “Pascal elegeu em Montaigne “o grande adversário”, para tomar de empréstimo uma frase empregada pelo poeta T. S. Eliot para se referir à relação entre os dois. É um tipo de linguagem habitualmente reservado ao próprio Satã, mas a alusão procede, pois Montaigne era para Pascal tormento, sedução e tentação.”


sábado, 5 de janeiro de 2013

A bola dos insensatos.


A bola dos insensatos.

            “A nau dos insensatos é uma antiga alegoria muito usada na cultura ocidental em literatura e pinturas. Imbuída de um senso de autocrítica, ela descreve o mundo e seus habitantes humanos como uma nau cujos passageiros perturbados nem sabem nem se importam para onde estão indo” – Wikipedia.
            Esta figura de linguagem é atualíssima! Quando lembro da “nau dos insensatos” comparo com um caminhão desgovernado, cheio de pessoas alvoroçadas na carroceria, dançando, aos gritos, indiferentes aos perigos que correm à cada curva.
            E visualizo o Planeta Terra, esta bolota apressada, coberta por pessoas em festas, parecendo uma bola porco-espinho, cada espinho um alucinado, “não sabendo nem se importando para onde estão indo”.
            O caminhão, o navio dos desarvorados, a Terra, vão em direção de quê?
            Vão na mesma direção em que vão as jovens e os jovens embriagados, transfigurados, que lotam as boates, os bares, em shows alucinados, embalados por batuques intermináveis, mantidos acesos por drogas inomináveis.
            Vão no mesmo rumo dos filhos ingratos, egoístas, sobranceiros, que tratam os pais como meros instrumentos de suas vontades urgentes, exigentes, inconsequentes.
            E tudo porque, desde Sodoma e Gomorra, os homens tentam, e tentam, sem sucesso, livrar-se, “libertar-se” das suas consciências, fardos insuportáveis, vigias das suas almas estragadas.
       O corpo lhes basta. Um corpo, sem alma, não cobra, não pune, não paga. Os homens, fantasmas vestidos, ocos, insensatos, passageiros da agonia, não têm noção. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

                A mulher, não! 

            Para um homem, a mulher começa como uma graça, jovem é um mito, adulta, a coisa mais importante. Sempre foi assim, para todos os homens do meu tempo.
            A visão inesperada da barriga da perna de uma mulher já foi um evento extraordinário, porque inusual, proibido porque pecaminoso, para quem mostrasse e para quem visse.
            Com o passar do tempo, a mulher foi-se despindo, até andar publicamente semi-nua. Mas não despudorada, porque moda impingida, súdita dos novos tempos.
            Hoje, vindo da caminhada da meia tarde, uma mulher, agachada, urinava ao lado de um carro, rindo à solta com a amiga que procurava servir-lhe de proteção.
            Que momento, triste, decadente, desolador! Aquela que um dia foi uma graça, um mito, urinando no pneu de um carro tal e qual uma cadela sem teto nem dono encharcando um poste!
            Os hábitos que transformaram essa mulher em objeto de pena, foram, certamente, os mesmos que lhe tiraram a graça e a meiguice. O quê lhe sobrou?
            Foi um aviso: sinal dos tempos negros de que nos aproximamos muito rapidamente. O homem já se abaixara e se rebaixara há muito, tornando-se um “bicho moderno”: violento, despudorado, desclassificado. Desalmado.
            A mulher chegou ao ponto de embriagar-se tanto quanto o homem, aviltar-se tanto quanto o homem, a tornar-se tão besta quanto o homem. Nada disso era preciso. Então a beleza não merece mais reverência? A mulher pretende desqualificar-se como companheira e mãe, porque quer ser homem na totalidade da igualdade?
            Por favor, não! Se a mulher perder a graça, o que restará?