quinta-feira, 20 de junho de 2013
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Reverência à vida!
Reverenciar
a graça da vida deveria ser do nosso cotidiano. No entanto, passamos
dias e dias virando o rosto para o sol, desdenhando das provas extraordinárias
que a cada passo nos defrontamos. Excluir-nos, por rancor ou orgulho, do palco
da vida, é a grande ingratidão! Viver é participar do clima, é sentir orgulho
da consciência, nosso dom exclusivo.
E, verdadeiramente, não valorizar o dom da vida
é a grande prova de desamor. William Shakespeare afirmou: “não amam os que não
mostram seu amor”.
Quão
tolos, ingratos, desmerecedores, somos em reclamar do sol, odiar a chuva,
fechar os olhos para o colorido da vida!
Talvez
sejamos o alvo de Lucrécio, que disse: “cansados, saciados do espetáculo dos
céus, nós não nos dignamos mais erguer nossos olhos para esses templos de luz”.
Se
nos cansarmos do espetáculo da vida, só nos restarão as
ausências dos templos de luz que a morte nos impingirá.
Amo
a vida. Só não aprendi, ainda, a demonstrar-lhe meu amor.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
O outro. E eu?
Até onde pode alcançar a minha reza? A minha macumba?
Por aonde vão minhas intenções, carregadas de adrenalinas, boas ou más, até atingir o outro? Como poderão atingir o alvo, se atiro pensamentos e a minha vítima está num poço, num abismo, ou está no mais longínquo da estratosfera?
De que me adianta torcer pelo sucesso ou insucesso do outro se, da arquibancada, não poderei empurrá-lo, nem freá-lo? De onde estou só posso ler as plaquetas dos recordes ou dos fracassos. Quando ele olhar para a arquibancada, dificilmente me encontrará no meio da multidão.
De que me adianta cuidar do outro, se assim agindo poderei irritá-lo, ou ajudá-lo insuficientemente? Ou influenciá-lo exageradamente, positiva ou negativamente?
Qual o bem que posso desejar para o outro, se só ele sente o que verdadeiramente lhe será vantajoso? O melhor para o outro poderá não ser o mesmo que estiver na minha intenção.
Se me preocupo com o outro porque o imagino carente de tal, posso estar ignorando o que verdadeiramente o aflige, na sua intensidade, na sua abrangência. Se tentar ajudá-lo, poderei, involuntariamente, desagradá-lo, empurrá-lo para o mal.
Clarice Lispector disse: “Um dia, tinham se passado vinte anos".
Enquanto me preocupo com as carências e falências do outro, o tempo passa.
Se tudo que intento para o outro me conforta, ou me traz a paz cruel da ira, mas, na verdade, não ajuda nem importa, porque não uso essas energias por mim?
Ah, como é importante o outro!
E eu?
Até onde pode alcançar a minha reza? A minha macumba?
Por aonde vão minhas intenções, carregadas de adrenalinas, boas ou más, até atingir o outro? Como poderão atingir o alvo, se atiro pensamentos e a minha vítima está num poço, num abismo, ou está no mais longínquo da estratosfera?
De que me adianta torcer pelo sucesso ou insucesso do outro se, da arquibancada, não poderei empurrá-lo, nem freá-lo? De onde estou só posso ler as plaquetas dos recordes ou dos fracassos. Quando ele olhar para a arquibancada, dificilmente me encontrará no meio da multidão.
De que me adianta cuidar do outro, se assim agindo poderei irritá-lo, ou ajudá-lo insuficientemente? Ou influenciá-lo exageradamente, positiva ou negativamente?
Qual o bem que posso desejar para o outro, se só ele sente o que verdadeiramente lhe será vantajoso? O melhor para o outro poderá não ser o mesmo que estiver na minha intenção.
Se me preocupo com o outro porque o imagino carente de tal, posso estar ignorando o que verdadeiramente o aflige, na sua intensidade, na sua abrangência. Se tentar ajudá-lo, poderei, involuntariamente, desagradá-lo, empurrá-lo para o mal.
Clarice Lispector disse: “Um dia, tinham se passado vinte anos".
Enquanto me preocupo com as carências e falências do outro, o tempo passa.
Se tudo que intento para o outro me conforta, ou me traz a paz cruel da ira, mas, na verdade, não ajuda nem importa, porque não uso essas energias por mim?
Ah, como é importante o outro!
E eu?
Autor desconhecido:
•Porque a bondade que nunca repreende não é bondade: é passividade.
•Porque a paciência que nunca se esgota não é paciência: é subserviência.
•Porque a serenidade que nunca se desmancha não é serenidade: é indiferença.
•Porque a tolerância que nunca replica não é tolerância: é imbecilidade.
A solidão e o ovo.
O homem, tendo vivido em cubos, cubículos, quadrados, quando todos do seu universo se vão, por desprezo ou pelo distanciamento, ou pela morte, se parece com um ovo. Nu, sem recursos, está sujeito a qualquer evento.
A criança nascida, que diferença tem de um ovo? É logo afagada; o ovo é largado no chão.
O que falta para o solitário? Alguém na cadeira.
O que tem de sobra, o solitário? Excesso de si no seu pouco-mundo.
O que mais teme, o solitário? A multidão.
O que espera o solitário? Batidas na porta.
A quem importa o solitário? Não conta, não importa.
O quê faz o solitário? Coisas, sem registros, nem lembranças.
Como o peixe que nunca será notado porque não pescado, a solidão encobre o homem nas trevas do esquecimento.
Morte, solidão eterna. Assim que se encerram os cantos, todos os cantores se vão.
17 JAN 13
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Comece hoje!
- "Observe sua postura quando ouve.
Você ouve prestando total atenção ou pensa em soluções enquanto a outra pessoa está falando?
Você espera impacientemente para expressar seu ponto de vista?
Você se precipita automaticamente quando o outro respira ou faz uma pausa para organizar um pensamento?
Da próxima vez que conversar com alguém, escute prestando total atenção. Se começar a formular qualquer resposta enquanto o outro estiver falando, retome a concentração e seja todo ouvidos.
Uma das maiores cortesias que se pode fazer a alguém é lhe dar toda a sua atenção" -
Da obra “Eu não tenho que resolver tudo” – Editora Rocco – Gary B. Lundberg e Joy Saunders Lundberg – pg. 71.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
A solidão e o ovo.
A
solidão e o ovo.
A
solidão mete medo, porque torna o homem desprotegido, vulnerável.
Solidão
é castigo?
O
homem, tendo vivido cercado, quando todos se vão, por desprezo
ou pelo distanciamento, ou pela morte, se parece com um ovo. Nu, sem recursos, está
sujeito a qualquer evento. O solitário é um ovo abandonado.
A
criança, nascida, que diferença tem de um ovo? É logo afagada; o ovo posto é largado
no chão.
Quem
um dia ficou só, teme a solidão.
O
solitário é uma criança que virou ovo em vida.
Morte,
solidão eterna. Assim que se encerram os cantos, todos os cantores se vão.
O
quê falta para o solitário? Alguém na cadeira.
O
quê tem de sobra, o solitário? Excesso de si no seu pouco-mundo.
O
quê mais teme, o solitário? A multidão.
O
quê espera o solitário? Batidas na porta.
A
quem importa o solitário? Não conta, não importa.
O
quê faz o solitário? Coisas, sem registros, nem lembranças.
Como
o peixe que nunca será notado porque não pescado, a solidão encobre o homem nas
trevas do esquecimento.
17 jan 13
Como viver ...
Ainda sobre Michel de Montaigne.
De “Como Viver”, de Sara BakeWell – Ed. Objetiva – pag. 212.
Ao lado do desejo de ser feliz, de alcançar
a paz emocional e estar no pleno domínio das próprias faculdades, alguma coisa
compele periodicamente as pessoas a destruir as próprias conquistas.
É o que Freud chamava de princípio de thanatos:
a pulsão para a morte e o caos.
Ela foi descrita assim, no século XX, pela
escritora Rebecca West:
- “Só em parte
somos sãos: só uma parte nossa ama o prazer e um dia mais prolongado de
felicidade, só uma parte quer viver até noventa anos e mais e morrer em paz,
numa casa que construímos e que abrigará os que vierem depois de nós. Nossa
outra metade é quase louca. Prefere o desagradável ao agradável, ama a dor e
seu sombrio desespero noturno e quer morrer numa catástrofe que mandará a vida
de volta ao começo, nada deixando de nossa casa, senão os alicerces
calcinados.”
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Como viver - Montaigne.
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Ainda sobre Michel de Montaigne.
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De “Como Viver”, de Sara
BakeWell – Ed. Objetiva – pag. 212
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Montaigne não confia em ambições divinas; para ele, aqueles que tentam
alçar-se acima do que é humano conseguem apenas cair no subumano. Ser verdadeiramente
humano significa comportar-se não só de maneira comum, mas ordenada, palavra definida no Oxford English Dictionary como
“organizada, regulada; ordeira, regular, moderada”. Significa viver
adequadamente, ou à propos, de modo
a avaliar as coisas pelo exato valor e comportar-se de maneira apropriada a
cada situação. Por isso é que, no dizer de Montaigne, viver adequadamente é
“nossa grande e gloriosa obra-prima”.
|
Para
Montaigne, “não há nada tão belo e legítimo quanto ser um homem de forma boa e
adequada, nem conhecimento tão difícil de adquirir quanto o conhecimento de
como viver esta vida bem e com naturalidade; e a mais bárbara de nossas doenças
é desprezar o nosso ser.”
***
Montaigne.
Ainda sobre Michel de Montaigne.
De “Como Viver”, de Sara BakeWell – Ed. Objetiva –
pag. 212.
|
Montaigne não confia em ambições divinas; para ele, aqueles que tentam
alçar-se acima do que é humano conseguem apenas cair no subumano. Ser verdadeiramente
humano significa comportar-se não só de maneira comum, mas ordenada, palavra definida no Oxford English Dictionary como
“organizada, regulada; ordeira, regular, moderada”. Significa viver
adequadamente, ou à propos, de modo
a avaliar as coisas pelo exato valor e comportar-se de maneira apropriada a
cada situação. Por isso é que, no dizer de Montaigne, viver adequadamente é
“nossa grande e gloriosa obra-prima”.
Para
Montaigne, “não há nada tão belo e legítimo quanto ser um homem de forma boa
e adequada, nem conhecimento tão difícil de adquirir quanto o conhecimento de
como viver esta vida bem e com naturalidade; e a mais bárbara de nossas
doenças é desprezar o nosso ser.”
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
O quê somos ...
Em outubro,
postei:
O que somos e o que não somos”.
1. O inimigo e o
culpado.
Temos,
cada um, um inimigo (genético). Eu tenho um. Mental. Quando sou contrariado, ou alguma
coisa não vai bem, eu parto pra briga, chutando, berrando, dizendo-lhe um
milhão de verdades. Às vezes até me pego gesticulando e fazendo caretas. A
minha sorte é que o meu verdadeiro inimigo, o real, já foi enfrentado por meus
antepassados. Melhor assim.
Esses
“inimigos” não estão em cavernas. Cada um elege um próximo, colega ou parente.
O
segredo do bem viver está em descobrir quem foi o nosso infeliz eleito. Se
inimigo mental, quando ele insistir em aparecer, devemos mandá-lo de volta para
a pré-história. Se real, transmutá-lo em amigo.
Não
há como conviver com inimigos. As culpas são invencionices de cabeças com 4.000
anos, ou mais.
Hoje, lendo “Como viver”, de Sarah Bakewell (biografia de Montaigne), pag. 154, lá está:
Hoje, lendo “Como viver”, de Sarah Bakewell (biografia de Montaigne), pag. 154, lá está:
-
“Pascal elegeu em Montaigne “o grande adversário”, para tomar de empréstimo uma
frase empregada pelo poeta T. S. Eliot para se referir à relação entre os dois.
É um tipo de linguagem habitualmente reservado ao próprio Satã, mas a alusão procede,
pois Montaigne era para Pascal tormento, sedução e tentação.”
sábado, 5 de janeiro de 2013
A bola dos insensatos.
A bola dos insensatos.
“A
nau dos insensatos é uma antiga alegoria muito usada na cultura ocidental em literatura e pinturas. Imbuída de um
senso de autocrítica,
ela descreve o mundo e seus habitantes humanos como uma nau cujos passageiros
perturbados nem sabem nem se importam para onde estão indo” – Wikipedia.
Esta
figura de linguagem é atualíssima! Quando lembro da “nau dos insensatos”
comparo com um caminhão desgovernado, cheio de pessoas alvoroçadas na
carroceria, dançando, aos gritos, indiferentes aos perigos que correm à cada
curva.
E
visualizo o Planeta Terra, esta bolota apressada, coberta por pessoas em festas,
parecendo uma bola porco-espinho, cada espinho um alucinado, “não sabendo nem
se importando para onde estão indo”.
O
caminhão, o navio dos desarvorados, a Terra, vão em direção de quê?
Vão
na mesma direção em que vão as jovens e os jovens embriagados, transfigurados,
que lotam as boates, os bares, em shows alucinados, embalados por batuques
intermináveis, mantidos acesos por drogas inomináveis.
Vão
no mesmo rumo dos filhos ingratos, egoístas, sobranceiros, que tratam os pais
como meros instrumentos de suas vontades urgentes, exigentes, inconsequentes.
E
tudo porque, desde Sodoma e Gomorra, os homens tentam, e tentam, sem sucesso, livrar-se,
“libertar-se” das suas consciências, fardos insuportáveis, vigias das suas
almas estragadas.
O corpo lhes basta. Um corpo,
sem alma, não cobra, não pune, não paga. Os homens, fantasmas vestidos, ocos,
insensatos, passageiros da agonia, não têm noção.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
A mulher, não!
Para um homem, a mulher começa como uma graça, jovem é um mito, adulta, a coisa mais importante. Sempre foi assim, para todos os homens do meu tempo.
Para um homem, a mulher começa como uma graça, jovem é um mito, adulta, a coisa mais importante. Sempre foi assim, para todos os homens do meu tempo.
A
visão inesperada da barriga da perna de uma mulher já foi um evento
extraordinário, porque inusual, proibido porque pecaminoso, para quem mostrasse
e para quem visse.
Com
o passar do tempo, a mulher foi-se despindo, até andar publicamente semi-nua.
Mas não despudorada, porque moda impingida, súdita dos novos tempos.
Hoje,
vindo da caminhada da meia tarde, uma mulher, agachada, urinava ao lado de um
carro, rindo à solta com a amiga que procurava servir-lhe de proteção.
Que
momento, triste, decadente, desolador! Aquela que um dia foi uma graça, um
mito, urinando no pneu de um carro tal e qual uma cadela sem teto nem dono
encharcando um poste!
Os
hábitos que transformaram essa mulher em objeto de pena, foram, certamente, os
mesmos que lhe tiraram a graça e a meiguice. O quê lhe sobrou?
Foi
um aviso: sinal dos tempos negros de que nos aproximamos muito rapidamente. O
homem já se abaixara e se rebaixara há muito, tornando-se um “bicho moderno”:
violento, despudorado, desclassificado. Desalmado.
A
mulher chegou ao ponto de embriagar-se tanto quanto o homem, aviltar-se tanto
quanto o homem, a tornar-se tão besta quanto o homem. Nada disso era preciso.
Então a beleza não merece mais reverência? A mulher pretende desqualificar-se
como companheira e mãe, porque quer ser homem na totalidade da igualdade?
Por
favor, não! Se a mulher perder a graça, o que restará?
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
E o diabo?
E
o diabo, por onde anda?
Precisamos
encontrar o diabo. Urge uma conferência, para um armistício. Sem diálogo vai
ser difícil.
O
mundo caminha na contra-mão, num estouro de insensatos. Os tijolos, cozidos no fogo da esperança, que formam o
alicerce dos seres diferentes que somos, feito de honra e decência, desmancham-se a cada dia, fragilizando-nos, tornando-nos
meros animais nascidos unicamente para a perpetuação da espécie.
Valiosas
são, ainda, as crianças. Porque puras, ainda intocadas, ainda não infectadas.
Depois que perdem a inocência, caem no turbilhão maluco dos interesses
materiais, dos sonhos vãos sonhados no sem-compromisso.
Infelizes
somos, e seremos, mais e mais, por não darmos valor às coisas da alma.
Exclusividade nossa. Patrimônio incomparável.
Carinho,
cuidado e compreensão, valores de todos os seres vivos, estão a se perder, lentamente,
no tempo que se escoa no infinito escuro.
Sem
estas qualidades, inerentes às mães, nenhum filho sobreviveria. Não só aos
pequenos são importantes, mas também muito fundamentais para o crescimento
moral de toda mulher e de todo homem.
Desculpo-me.
Não, não invoquemos o demônio. Guimarães Rosa foi taxativo: “o Arrenegado, o Cão, o
Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o
Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o
Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-sei-que-diga, O-que-nunca-se-ri, o
Sem-Gracejos... Pois, não existe! E se não existe, como é que se pode se
contratar pacto com ele?”
Por
isto desisto de invocá-lo. Mas Guimarães Rosa também disse: "Viver
é muito perigoso!"
Aproveito
e pergunto: de onde vem esse perigo?
A
alma é um espírito que se agarra ao corpo do homem e só larga com a morte.
O
mal dos homens, eu acho, é que eles estão querendo livrar-se da alma antes da
hora.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Ganhar.
Bernard Tapie – obra: GANHAR
Foi assim que um dia eu adotei uma raposa. Nós a encontramos
ferida na floresta de Senlis. Soube depois – lendo em algum lugar – que, numa
ninhada de raposas, há sempre uma que é condenada pela mãe, mistério da seleção
natural: num momento determinado, na poça onde todas bebem, há uma que bebe de
modo diferente das outras, lambendo como cachorro. Essa, ela mata. Chegamos bem
na hora em que a mãe ia matá-la. Nossa aparição fez as raposas fugirem. Nós a
recolhemos e cuidamos dela. Durante seis ou sete anos – eu tinha seis ou sete
anos e fiquei com ela até os catorze -, ela foi o meu cachorro de estimação.
Custo-benefício.
Custo-benefício.
Ao ler a frase “... está entre
os que, da sorte, não tiveram mais do que a ocasião”, de N. Maquiavel (O
Príncipe), lembrei-me daqueles que, igualmente, “do azar, não tiveram mais que
a ocasião”.
Os desvalidos, podemos considerar aqueles que, maus, são apanhados
e castigados. Os atos impensados desses bandidos me induz a avaliar: o mal vale
a pena? O mal que é punido pela liberdade proibida, é um mal burro. Só é
praticado pelos tansos que não avaliam o custo-benefício de
suas ações.
Um gatilho apertado numa ocasião de raiva, não leva mais que uma
fração de segundo. O resultado – a bala que mata – leva o inconsequente para
uma prisão onde ficará por muitos anos. O bandido é um péssimo negociante:
troca um breve gesto ríspido destruidor pela longa vida em uma cela fedorenta, sem
liberdade nem futuro.
Troca, na verdade, sua vida por
um segundo, sim, porque uma prisão nada mais é do que um cemitério de almas
aprisionadas.
Um segundo por SEISCENTOS E VINTE E DOIS MILHÕES E OITENTA MIL
SEGUNDOS! (se preso ficar por vinte anos).
Convenhamos, fazer o mal é um péssimo negócio.
Eis uma matéria a ser ensinada para todo cidadão: custo-benefício
das ações entre os homens.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Muitas coisas ... - Montaigne.
Michel de Montaigne.
Muitas coisas parecem maiores quando pensamos nelas do
que quando com elas deparamos. Passei boa parte de minha existência em perfeita
saúde, não somente ignorando a doença, mas ainda cheio de vida e atividade.
Esse estado de verdor e alegria fazia-me temer a tal ponto a enfermidade que,
ao experimentá-la, a achei menos horrível do que imaginara. Eis um fato que se
repete cotidianamente comigo: se me encontro comodamente aquecido no meu quarto
durante uma noite de tempestade, tremo pelos outros e me apiedo deles. No
entanto, se me acho eu próprio na tempestade não procuro sequer um refúgio.
Estar constantemente fechado dentro de um quarto, parecia-me insuportável. Uma
doença que muito me aborreceu, mudou-me e me enfraqueceu a ponto de me obrigar
a guardar o leito durante cinco semanas. Verifiquei então que, quando estava
com saúde, os doentes me pareciam muito mais dignos do que eu em idêntica
circunstância e que minha apreensão dobrava quase a desgraça real. Espero que
ocorra o mesmo quanto à morte e que ela não valha em verdade todo o esforço que
faço para me preparar a recebê-la dignamente, nem todos os recursos que tento
juntar a fim de resistir a seu ataque. Em todo caso não convém negligenciar
nenhum de seus aspectos.
Ensaios - Tomo I – pág. 176
12/09/2007
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
Metamorfose louca.
Metamorfose louca.
Passando os olhos por um
vidro de detergente pareceu-me que se mexia.
Dei asas à imaginação e vi a
embalagem rebolando, contorcendo-se, aumentando de tamanho, diminuindo,
crescendo assustadoramente, como se tivesse vida, ou quase isto.
E surgiu a pergunta cretina:
se as coisas prontas, definidas, exceto os seres vivos, tivessem a capacidade
de transmutar-se em tamanhos e formas diferentes daquelas que conhecemos? As
composições físico-químicas metamorfosear-se-iam, aleatoriamente, alterando os
volumes de tudo que conhecemos, que tal?
Um avião em pleno vôo, por
exemplo: imenso, milhares de toneladas, duas centenas de passageiros, de
repente, sem aviso, diminuísse, no comprimento, seu corpo pela metade? O que
aconteceria aos passageiros? E se ocorresse o contrário? Se dobrasse de
tamanho, passando de 60, 70 metros, para 150 metros, da cabine à cauda?
Caso as coisas imaginadas
tivessem esta possibilidade, não tendo consciência, tutor ou controlador,
transmutar-se-iam inesperadamente, sem aviso nem apito.
A vida, como a conhecemos, não seria possível, pois viveríamos num caos absoluto entre objetos “malucos e inquietos”.
A carga de um caminhão, ou
navio, ou trem, se se expandisse, ou se se diminuísse, desavisadamente?
Idéia tão louca que não
justifica continuar conjecturando, visto que não seríamos, na certa, os
senhores do planeta Terra.
Então vamos agradecer,
elogiar, valorizar a composição físico-química das coisas, característica que
mantém tudo como se forma, tornando-nos manipuladores, controladores e
transformadores de tudo, os senhores do pedaço.
Ainda bem. Já nos basta
vivermos em meio aos homens, que são, descontroladamente, físicos, químicos,
debilóides e caóticos, não é verdade?
27 dez 2012.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
A velha a fiar ...
Puxando o fio da meada.
“Efeito borboleta” é uma teoria que se resume no seguinte: “o bater de asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar um furacão em N. York”. Simplificando, um pequeno ato aqui poderá, eventualmente, provocar evento significativo acolá.
É uma lei que faz parte da “Teoria do caos”. “A idéia principal é que uma pequena e, à primeira vista, insignificante mudança no início de um evento, pode trazer grandes e imprevisíveis mudanças no futuro”.
No folclore brasileiro a brincadeira “a velha a fiar” pretende explicar, mais ou menos, a mesma coisa. Inicia-se com uma mosca incomodando uma velha que está a fiar. Em seguida, a mosca, por sua vez, vem a ser incomodada por uma aranha. E, depois de inúmeras idas e vindas, com a intromissão de várias figuras predadoras, a brincadeira termina assim:
“Estava a mulher em seu lugar;
Veio a morte lhe fazer mal;
A morte na mulher, a mulher no homem, o homem no boi, o boi na água, a água no fogo, o fogo no pau, o pau no cachorro, o cachorro no gato, o gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar”.
Veio a morte lhe fazer mal;
A morte na mulher, a mulher no homem, o homem no boi, o boi na água, a água no fogo, o fogo no pau, o pau no cachorro, o cachorro no gato, o gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar”.
Quando venho a tomar conhecimento de que uma colisão numa estrada torna-se fatal para qualquer dos envolvidos, pergunto-me: de quem terá sido a culpa por esta tragédia?
Se do trágico evento ficar provada a deficiência do sistema viário (falta ou precariedade de sinalização, ou piso irregular), se voltarmos no tempo, como se seguíssemos todos os passos até chegar à borboleta, ou à velha fiando, seguramente que chegaríamos ao verdadeiro responsável por aquela morte.
Sigamos os passos:
O Governador indica o Secretário de Obras (que não é um especialista em estradas);
O Secretário de Obras, por não ser um especialista em estradas, monta uma equipe em que nem todos são especialistas;
O subordinado direto do Secretário, responsável pela manutenção das estradas, por alguma razão, ou razões várias, não mantém o leito da estrada em condições de boa trafegabilidade, porque nunca manteve estrada alguma (provavelmente seja um empresário do ramo de embutidos);
O subordinado direto do subordinado direto do Secretário, por alguma razão, ou razões várias, não mantém as estradas com sinalização perfeita para uma perfeita dirigibilidade.
No local do confronto entre os veículos que vieram a provocar a morte do cidadão, o leito da estrada não estava em condições de trafegabilidade, nem de boa visualização, por falta, ou deficiência da sinalização.
Conclusão: temos que, pelo “efeito borboleta”, o responsável pela morte do cidadão, provocada pela má condição da estrada e por sua má sinalização, é o Governador “borboleta.”
26 dez 2012.
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